CULTURA ORGANIZACIONAL: Amálgama que sustenta as tradições da Polícia Militar do Estado de São Paulo
A cultura, ou seja, a prática reiterada de comportamentos e condutas socialmente aceitas por determinado grupo social, em certo tempo e espaço, se materializa no insumo essencial para definir a existência de determinado grupo humano e/ou social . Considerando tal paradigma, a cultura organizacional reproduz crenças, normas e valores institucionalmente aceitos e replicáveis , delineando composição e o perfil dos seus integrantes. Cabe, nesse diapasão, clarificar uma linha perceptiva essencial: cultura organizacional é um gênero que identifica a forma de pensar e agir de uma corporação, sustentando em seu bojo desde os elementos essenciais à sua existência até posicionamentos estratégicos coligidos com direção, planejamento, organização e controle .
Por se tratar de um complexo e imbricado processo de socialização, toda cultura está submetida e sujeita à duas significativas variantes. Que influenciam e modificam seu estado e interferem diretamente no autoconhecimento de um sujeito, de um grupo ou de uma Instituição. A subcultura é uma ramificação disfuncional à cultura dominante e oficialmente constituída, caracterizada pela oposição aos preceitos majoritariamente colocados como característicos e essenciais à sua própria existência . Enquanto essa variação ocorre de forma velada, a contracultura, por sua vez, é um processo ostensivo de negação e oposição a cultura vigente, através de movimentos e articulações engajadas, com a finalidade de extirpar e eliminar o processo de socialização vigente .
Os dois fenômenos retrocitados alijam e deturpam a Cultura Organizacional, sejam em instituições de natureza pública ou privada, contribuindo diretamente para uma alteração substancial de seus objetivos e propósitos ou, até mesmo, para sua extinção. Em organizações militares, seus efeitos são, ainda, mais nefastos, já que a estrutura dessas Forças são baseadas em princípios e valores claramente internalizados por seus profissionais e externalizados por suas condutas, destacando a Hierarquia e a Disciplina .
No esteio deste raciocínio, o fundamento da Cultura Organizacional de uma Instituição pública encontra guarida na consolidação da conduta de todos os seus integrantes numa Deontologia, ou seja, em princípios e valores profissionais, com impacto direto no relacionamento interpessoal e autocogniscente dentro e fora do espaço laboral. Na Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP), o arcabouço ético e moral que arquitetura a Cultura Organizacional está amplamente estampada na Lei Complementar Estadual n° 893, de 9 de março de 2001, constituindo o Regulamento Disciplinar (RDPM) da Força Pública bandeirante. Tal regramento, de consulta aberta e pública, apregoa características singulares que elevam a profissão policial-militar à condição de missão, “status quo” indeclinável e juramentado por compromisso solene .
As Polícias Militares, responsáveis pelo policiamento ostensivo e pela preservação da ordem pública, conforme mantra emanado por nossa Carta Magna , apresenta uma natural periculosidade funcional, materializada pelo perfil criminológicos e a multiplicidade de índices de práticas infracionais das mais diversas naturezas. Enfatizando especificamente aquelas que atentam contra a vida, a incolumidade física e o patrimônio, exigem do Policial Militar uma inflexível e inegociável resiliência aos princípios e valores da Cultura Organizacional. Práticas enviesadas, proclamadas contrariamente aos ditames legais e doutrinários, se apresentam como subculturas degenerativas à própria existência da Instituição. Tal cenário atinge maior criticidade institucional e perplexidade social quando os atos contrários à tradição desta quase Bicentenária PMESP são praticados na esfera operacional, já que a “razão de ser e existir”, finalisticamente, se justifica pela prestação de uma atividade e serviço público essencial com excelência de qualidade e atendimento ao cidadão.
O enfrentamento da subcultura deve ser protagonizado pelos Oficiais da PMESP, em todos os postos e funções. Considerando o efeito empático que suas atitudes provocam em pares e comandados, todos devem se imbuir de conduzir suas carreiras norteados pelos 11 princípios matizados no RDPM . O sustentáculo ideológico que exterioriza os fundamentos da Polícia Militar paulista apresenta alguns paradigmas psicológicos que intensificam a premente importância da Cultura Organizacional, como a lealdade (fidedignidade das atitudes alinhadas com a tradição e as normativas institucionais), a constância (manutenção de ações, mesmo em ambientes e condições inóspitas) e a honestidade (credibilidade na apresentação de fatos e condições errôneas, com sinceridade e desapego particular).
Embora a árdua e exigente trilha carreirista conduza os Oficiais à funções que os sujeitam à chamada Teoria dos Altos Escalões, ou seja, susceptíveis de admoestações personalistas, subjetivas e díspares dos trilhos da ética profissional, tal armadilha enviesada deve ser superada, de forma que a reiterada atividade subcultural não seja elevada à condição de Cultura Organizacional, institucionalozando uma ação atentatória ao alicerce que sustenta os quase 80 mil homens e mulheres que protegem, com o sacrifício da própria vida, a segurança e a integridade dos paulistas.
Quanto às Praças, indispensáveis para o cumprimento do “mandamus’ constitucional, já que se posicionam estrategicamente no trato com a comunidade, verdadeiros burocratas em nível de rua essenciais à consecução da chamada “polícia de aproximação ”, é fundamental não apenas a introspecção como, também, a propagação da Cultura Organizacional em todas as suas atitudes, tanto como Policial Militar como cidadão pois, nas palavras do pensador Júlio Aukay, “a palavra estimula, o exemplo ensina e as atitudes transformam”.
Os fenômenos que proliferam veladamente a subcultura deve ser encarados com a devida importância desvelada nesse ensaio. O comportamento sub-reptício que prolifera a tal idiossincrasia, chamada internamente na caserna como “cultura dos alojamentos”, inserindo-se extra oficialmente na Instituição, mesmo que não regulamentada, cria profundas dificuldades na gestão do cotidiano e na prospecção de cenários futuros já que, segundo Peter Drucker, “a cultura come a estratégia no café da manhã” . Fundamental, como medida de superação de tal mazela, a introspecção da consciência situacional acerca da Deontologia policial-militar e, sobretudo, do permanente reforço, com palavras e ações, da Cultura Organizacional, calcada nas tradições que permeiam a memória e a história que constrói, dia a dia, a identidade da Polícia Militar Paulista: servir e proteger os paulistas é missão e vocação!
Autores:
Maj PM Wanderley TUROLLA Alves Cardoso
Maj PM ORIVAL Santana Júnior
Maj PM DEMÉTRIUS Gomes Lopes
Maj PM Eduardo MOSNA XAVIER